quinta-feira, abril 05, 2012

DESENCANTO COM PARTIDOS




Especialistas apontam desencanto com partidos. PAULO GERMANO - ZERO HORA 
Para especialistas ouvidos por ZH, os grupos que promovem protestos na Capital ganham notoriedade porque os partidos e os movimentos sociais tradicionais passam por um período
de desgaste. É a chamada crise de representação.

– Essas manifestações refletem a ausência de reconhecimento desses grupos na estrutura 
partidária – diz a cientista política Maria Izabel Noll.

A pulverização desses movimentos já vinha ocorrendo há mais de uma década, quando o
partido hegemônico da esquerda, o PT, viu dissidentes fundando o PSTU e o PSOL.

– Ocorre uma certa saturação da juventude com denúncias e escândalos. Isso faz com que 
os jovens busquem formas de organização fora do sistema vigente – diz Maria Izabel.

Segundo o cientista político Benedito Tadeu César, os movimentos de massa perderam a proeminência que tinham:

–Depois da massificação de partidos e sindicatos, ganham notoriedade os pequenos 
movimentos que atuam sem a referência de uma liderança.

Ele ressalta que as ações individuais estão se sobrepondo aos atos coletivos em consequência
das próprias características da sociedade. Ficaram para trás os tempos em que milhares de operários trabalhavam coletivamente no pavilhão de uma fábrica. Na era moderna, as máquinas tomaram, em parte, o lugar do homem – e hoje o Facebook funciona com eficiência no lugar de
um megafone.

O fato de as facções responsáveis pelos protestos em Porto Alegre se manterem afastadas 
entre si – com hostilidade em alguns casos – é considerado normal pelo cientista político:

– É uma característica dos grupos minoritários. Como são muito firmes na defesa dos seus princípios, qualquer desvio de interpretação já é motivo para se criar uma dissidência.



Eles são jovens, eles fazem política fora dos meios tradicionais. Nas últimas semanas, uma
série de grupos movimentou a Capital com manifestações com objetivos diversos – do combate ao capitalismo à crítica ao aumento da passagem de ônibus. A proximidade da eleição municipal 
deve ampliar a tensão entre os grupos, que não deixam de abrigar interesses eleitorais.

Dois índios do Acre invadem a missa de dom Dadeus Grings, o vereador Adeli Sell (PT) troca empurrões com um rapaz, os direitos dos quilombolas interrompem uma audiência pública, a prefeitura é alvejada por tomates podres.

São quatro entre uma série de protestos que agitaram a Capital nas últimas semanas – todos liderados por grupos diferentes, com objetivos também diferentes. Alguns têm pretensões eleitorais, outros buscam hegemonia no movimento estudantil. Mas há também os que atuam distante dos partidos, flertando com a anarquia.

Essa salada de objetivos resulta em pequenas agremiações pipocando pela cidade, conduzindo protestos sem organização conjunta. Na verdade, boa parte desses grupos – a maioria formada por jovens estudantes – defende bandeiras em comum, mas trocam farpas por discordar da forma 
como os outros atuam. Ocorre que, para marcar posição, seus protestos vão se empilhando em datas distintas.

O racha nos movimentos começou no fim do mês passado, quando o Comitê de Luta Contra o Aumento da Passagem de Porto Alegre se dissolveu após uma sucessão de brigas. Os grupos que integravam o consórcio, então, foram um para cada lado. Rodolfo Mohr, 25 anos, líder da 
corrente Juntos! e filiado ao PSOL, foi criticado por líderes do Utopia e Luta porque estaria 
colocando interesses partidários à frente das discussões.

– Nós só defendemos a aproximação com a sociedade, a comunicação inclusive com a
imprensa. Eles, ao contrário, têm dificuldade para se comunicar – diz Mohr.

Está prevista para hoje, às 9h, uma passeata do Juntos! com destino ao Palácio Piratini, para reivindicar o pagamento do piso do magistério e expressar repúdio contra a reforma do Ensino Médio. Trata-se de um braço jovem do PSOL fazendo oposição ao governo Tarso Genro.
Já o Utopia e Luta, embora se diga apartidário, tem membros ligados à ala mais à esquerda do
PT – partido que se opõe à administração de José Fortunati (PDT) no município.

– Se alguém jogou tomate na prefeitura e brigou com alguém, isso é uma atitude individual. Não é uma orientação do movimento – diz Eduardo Solari, 56 anos, coordenador político do Utopia e
Luta, grupo criticado pelos demais por supostamente incitar a violência.

São líderes desse grupo que costumam pintar o termo “pula roleta” em janelas de ônibus.
Não contam com a simpatia da ONG Liberdade Humanitária, cujo presidente Leonardo 
Mesquita participou de um empurra-empurra com o vereador Adeli Sell (PT). O jovem de 
21 anos usou a tribuna popular da Câmara para cobrar licitações da prefeitura para o transporte público. Ao descer do púlpito, cochichou algo no ouvido de Adeli, que se levantou da cadeira e o agarrou pelo braço.

Pré-candidato a vereador pelo PSB, Leonardo diz que pode desistir de concorrer para provar 
sua atuação nada tem a ver com partidos. Sua postura é reprovada pelo movimento Ocupa 
POA, que está acampado na Praça da Matriz. No dia 20, o Ocupa POA recebeu uma visita de 
líderes indígenas do Acre. Seus membros, avessos à representação partidária, toparam 
acompanhar os índios até a Catedral Metropolitana – foram indígenas que teriam ajudado a 
erguer parte do prédio. Para chamar a atenção sobre a situação difícil dos índios, iniciaram 
um ritual religioso enquanto o arcebispo dom Dadeus Grings prosseguia sua missa 
normalmente.

As principais bandeiras

PASSAGEM DE ÔNIBUS - Alguns grupos têm como meta manter vivo o combate ao aumento
do preço das passagens de ônibus em Porto Alegre, efetivado no início de fevereiro. O reajuste de 5,56% foi sancionado pelo prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição e é alvo de 
parte dos manifestantes.

COMISSÃO DA VERDADE - Os jovens, que defendem a instalação da Comissão da Verdade
para esclarecer crimes cometidos pela ditadura militar, buscam expor publicamente ex-agentes do regime que vigorou entre 1964 e 1985. Os alvos são homens acusados de torturar presos 
políticos.

AMBIENTE - A questão ambiental é um tema caro aos novos movimentos. Eles não rejeitam o conceito de “economia verde”, tema central da Rio+20. Argumentam que o conceito apenas 
repete a lógica do capitalismo. Trata-se de uma preocupação ambiental pautada por razões mercadológicas.

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